PEERS CONSULTING | Artigo

Conflito no Oriente Médio pressiona frete e logística no Brasil

O conflito no Oriente Médio pressiona o preço do petróleo e aumenta os custos do transporte global, gerando impactos diretos na logística brasileira. A dependência do diesel, o aumento do frete e a alta de insumos como fertilizantes ampliam os efeitos sobre cadeias de suprimentos e preços ao consumidor.

Como a guerra no Oriente Médio impacta os preços do petróleo e o transporte global?

A guerra no Oriente Médio pressiona o preço do petróleo e eleva os custos do transporte global porque grande parte do fluxo energético mundial depende do Estreito de Ormuz.

Essa análise foi apresentada por Marcelo Ikaro, Executive Director da Peers Consulting + Technology, em entrevista concedida ao Mundo Logística.

Segundo o executivo, a região concentra um dos principais gargalos logísticos da economia global.

O Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico e funciona como a principal rota de exportação de energia do Oriente Médio.

Hoje, pelo estreito passam aproximadamente:

  • 21 milhões de barris de petróleo por dia, cerca de 25% do consumo global
  • 20% do gás natural liquefeito (GNL) do mundo, com forte participação do Catar

Isso significa que qualquer instabilidade militar na região impacta imediatamente o mercado global de energia.

Existem rotas alternativas ao Estreito de Ormuz?

Existem alternativas logísticas, principalmente por meio de oleodutos terrestres. No entanto, sua capacidade é limitada.

Os oleodutos existentes conseguem transportar cerca de 7 milhões de barris por dia, o que representa apenas um terço do volume que passa diariamente pelo estreito.

Na prática, isso significa que essas rotas não conseguem substituir totalmente o fluxo marítimo.

Os países asiáticos são os mais expostos ao risco logístico, já que aproximadamente 80% do petróleo que consomem vem dessa região.

Quando navios precisam utilizar rotas mais longas, o custo final aumenta principalmente por dois fatores:

  • distâncias maiores de transporte
  • aumento no preço do frete marítimo

Quais são os impactos imediatos nos mercados de energia e transporte?

Quando ocorrem ataques a navios ou bloqueios logísticos na região, os efeitos aparecem rapidamente nos mercados globais.

Os principais impactos incluem:

1. Alta do preço do petróleo

Em março de 2026, o Brent ultrapassou US$ 95 por barril, com volatilidade intraday próxima de 5%.

A redução do fluxo energético global cria um déficit de oferta no mercado físico, pressionando os preços.

2. Aumento do custo de seguros marítimos

Ataques recentes atingiram pelo menos 14 embarcações, levando seguradoras a aumentar significativamente os prêmios.

O setor passou a aplicar a War Risk Surcharge, uma sobretaxa de risco de guerra.

Em algumas rotas:

  • o seguro subiu de 0,05% para 0,7% do valor do navio
  • o custo de um petroleiro pode aumentar em mais de US$ 200 mil por viagem

3. Fretes marítimos mais caros

O combustível utilizado pelos navios, conhecido como bunker, acompanha diretamente o preço do petróleo.

Com isso, armadores aplicam o chamado Bunker Adjustment Factor (BAF), que eleva o custo do transporte de contêineres nas rotas:

  • Ásia – Europa
  • Ásia – Américas

Esse cenário reforça uma tendência discutida em análises recentes sobre geopolítica e cadeias globais de suprimentos.

Entenda como tensões geopolíticas estão redesenhando cadeias logísticas globais e acelerando mudanças no uso de tecnologia e dados no setor.

Como a guerra no Oriente Médio impacta o frete e a logística no Brasil?

A escalada do conflito no Oriente Médio tende a elevar o custo do frete no Brasil, principalmente por causa da alta do petróleo e da forte dependência do transporte rodoviário no país.

Hoje, cerca de 65% de toda a carga movimentada no Brasil é transportada por rodovias, o que torna o sistema altamente sensível às variações no preço do diesel.

Além disso, o país ainda depende de importações para abastecer parte do mercado de combustíveis.

  • 25% do diesel consumido no Brasil é importado
  • 15% da gasolina vem do exterior

Quando o preço do petróleo sobe no mercado internacional, o custo dessas importações aumenta e pressiona toda a cadeia logística.

Estudos do setor indicam que cada aumento de 10% no preço do diesel pode elevar o custo do frete entre 3,5% e 4,8%.

Além disso, navios sendo desviados para rotas mais longas, como pelo Cabo da Boa Esperança, podem aumentar o lead time de importação entre 10 e 15 dias.

Outro ponto crítico envolve os fertilizantes. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no país, o que torna o agronegócio sensível a interrupções logísticas globais.

O que muda para empresas brasileiras e consumidores?

No setor de transporte, o diesel representa entre 35% e 45% dos custos operacionais de uma transportadora.

Quando o combustível sobe, empresas sem cláusulas de reajuste enfrentam compressão de margem.

Esse impacto chega rapidamente ao varejo, elevando o chamado custo de prateleira.

No agronegócio, fertilizantes nitrogenados já registram alta próxima de 22%.

Estimativas indicam possíveis impactos como:

  • diesel entre 12% e 15% mais caro
  • frete médio entre 7% e 9% mais alto
  • pressão de até 2,5 pontos percentuais na inflação de alimentos

Como as empresas podem se preparar para esse cenário logístico mais volátil?

Empresas podem reduzir os impactos da instabilidade logística global fortalecendo a gestão da cadeia de suprimentos e aumentando a eficiência operacional.

Organizações com processos logísticos mais estruturados tendem a reagir com maior rapidez às variações de frete, combustíveis e disponibilidade de insumos.

Em um projeto conduzido pela Peers para uma plataforma latino-americana de tecnologia logística, a estruturação de um programa de eficiência permitiu capturar R$ 11,84 milhões em ganhos em 2024.

A iniciativa também contribuiu para um aumento de 3,7 pontos percentuais na margem EBITDA.

Veja como a estruturação de um programa de eficiência ajudou uma plataforma de tecnologia logística a capturar ganhos de escala e expandir sua margem operacional.

SOBRE OS AUTORES

Marcelo Ikaro
Marcelo Ikaro
Executive Director