As tendências para a indústria farmacêutica em 2026 indicam uma transição do foco no produto para a consolidação de ecossistemas de saúde integrados. O cenário é marcado pela ascensão dos biossimilares, a expansão dos medicamentos GLP-1 e a transformação das farmácias em hubs de cuidado. A eficiência operacional, a conformidade regulatória e a experiência “figital” do paciente tornam-se os pilares centrais para a sustentabilidade do setor no Brasil.
Essa análise foi destaque no Saúde Digital News, pautada pela visão estratégica de Alex Osoegawa, Executive Director na Peers Consulting + Technology.
Leia a matéria na íntegra no Saúde Digital News.
Qual o cenário econômico e estrutural da indústria farmacêutica para 2026?
A indústria farmacêutica atravessa um momento de inflexão estratégica onde a expansão de portfólio, por si só, não garante mais a liderança de mercado. O setor caminha para uma consolidação do conceito de “saúde como sistema”, impulsionado por números que evidenciam uma mudança no eixo de valor. Segundo o relatório Tendências Farma 2026 da Mintel, o mercado farmacêutico brasileiro deve atingir a marca de US$ 43,9 bilhões. O dado mais revelador, no entanto, é a composição desse montante: 41% desse volume já provém do canal não varejo, englobando hospitais, governo e compras institucionais. Isso sinaliza que a venda de balcão divide protagonismo com negociações complexas B2B e B2G, alterando profundamente a estrutura comercial das companhias.
Simultaneamente, o mercado enfrenta o fenômeno do “patent cliff” (abismo de patentes) em biológicos de alta complexidade, o que colocou os biossimilares no centro da pauta econômica. Atualmente, o Brasil já conta com 51 biossimilares registrados pela Anvisa e cerca de 30 em análise. A entrada desses medicamentos não é apenas uma questão de alternativa terapêutica, mas de eficiência orçamentária para o sistema de saúde. Estudos publicados no Jornal Brasileiro de Economia da Saúde indicam reduções de custos drásticas: 55,9% para pacientes que migraram do medicamento referência para o biossimilar e 71,1% para aqueles que já iniciaram o tratamento com a nova tecnologia.
Outro vetor de transformação é a mudança cultural em relação à saúde metabólica e ao bem-estar contínuo. Os medicamentos da classe GLP-1 transcenderam o tratamento clínico de diabetes e obesidade para se tornarem um fenômeno social e econômico. Dados do BTG Pactual, baseados em estimativas da IQVIA, apontam que essa categoria já movimenta entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões anualmente no Brasil, com um potencial de crescimento para atingir entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões em 2026. Esse cenário desenha um mercado onde o paciente não busca apenas uma cura pontual, mas uma jornada de estilo de vida gerenciada.
Para entender mais sobre a rentabilidade e as estratégias dos grandes players do setor, confira nossa análise detalhada sobre o Varejo Farmacêutico: Uma Análise de Rentabilidade e Expansão.
Como as farmacêuticas devem adaptar suas operações ao modelo de saúde integrada?
Para capturar valor neste novo cenário, a indústria precisa abandonar a visão linear de venda de produtos e adotar uma postura de gestão de ecossistema. A estratégia vencedora para 2026 envolve a orquestração de múltiplos pontos de contato — físicos e digitais — e a capacidade de operar em rede com varejistas, seguradoras e pacientes. A implementação de um modelo “figital” (físico + digital) deixa de ser um diferencial de inovação para se tornar um requisito básico de operação, especialmente com a entrada de players logísticos nativos digitais, como o Mercado Livre, no setor de medicamentos.
As prioridades operacionais para sustentar essa transição incluem:
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Robustez na Cadeia de Biossimilares: Garantir consistência de qualidade e fornecimento industrial para assegurar a confiança de médicos e pagadores, transformando a segurança do abastecimento em vantagem competitiva.
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Jornada de Saúde Metabólica: Estruturar serviços de suporte ao paciente que utiliza GLP-1, oferecendo orientação e previsibilidade, visto que este perfil de consumidor demanda acompanhamento de longo prazo.
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Integração Omnicanal Real: Assegurar que a experiência de compra e cuidado seja fluida, seja via prescrição eletrônica, telemedicina ou retirada em loja, evitando rupturas na jornada do paciente.
Como destaca Alex Osoegawa, Executive Director na Peers Consulting + Technology, a mudança de mentalidade é imperativa:
“Esse é o ponto central deste momento: a indústria farmacêutica não está só vivendo uma onda de lançamentos, mas também entrando em um cenário em que a saúde vira sistema. E, quando isso acontece, estratégia deixa de ser só portfólio. Passa a ser execução, canal, confiança e capacidade de operar em rede.”
Quais são os riscos de governança e os desafios regulatórios dessa transição?
A migração para um modelo de saúde sistêmico traz camadas adicionais de complexidade e risco. A atuação no canal institucional (que corresponde a 41% do mercado) exige um nível de compliance e governança muito superior ao do varejo tradicional. Vender para governos e grandes redes hospitalares implica lidar com protocolos rígidos, previsibilidade de entrega mandatória e uma pressão constante por evidência de valor real (Real World Evidence). A falha na entrega ou na conformidade não resulta apenas em perda de receita, mas em exclusão de editais e danos reputacionais severos.
No front regulatório, a previsibilidade é a chave para mitigar riscos. A Anvisa aprovou a Agenda Regulatória 2026–2027, formalizada em dezembro de 2025, listando 161 temas prioritários para o ciclo. Para a indústria, esse documento deve ser tratado como um mapa de riscos e oportunidades. Empresas que não possuem processos internos ágeis para responder a essas atualizações regulatórias perderão timing de mercado. Além disso, a tensão no modelo “figital” apresenta um risco estratégico: à medida que plataformas digitais intermediam a relação, a indústria corre o risco de perder o protagonismo e se tornar apenas mais um fornecedor de commodities na prateleira virtual.
Adicionalmente, a pauta ESG evoluiu de um discurso corporativo para um requisito técnico de acesso. Em 2026, práticas de logística reversa, descarte correto de medicamentos e redução da pegada de carbono na manufatura são critérios de seleção de fornecedores e de atração de investimentos. A sustentabilidade precisa estar integrada ao “chão de fábrica” e à cadeia de suprimentos, garantindo transparência total. Sem isso, a “confiança” — moeda forte do setor — é corroída.
As mudanças fiscais impactam diretamente a precificação e a margem das farmácias. Veja nossa análise sobre a Reforma Tributária: quais os impactos para as farmácias?
Quais tendências moldarão o futuro do setor no longo prazo?
Olhando para além de 2026, projetamos um crescimento acelerado em segmentos que unem ciência rigorosa e desejo do consumidor, como o de dermocosméticos. A Allied Market Research projeta que este mercado global atingirá US$ 130,46 bilhões até 2030. No Brasil, historicamente ligado à estética e bem-estar, isso representa uma oportunidade para farmacêuticas que conseguirem equilibrar a eficácia clínica com a experiência de marca, comunicando valor tanto para o dermatologista quanto para o consumidor final.
Outra fronteira de expansão é a saúde mental, que migra de uma abordagem de “solução única” para o bem-estar integral. O estudo do eixo intestino-cérebro exemplifica como a ciência está conectando nutrição, prevenção e saúde mental, abrindo espaço para inovações em probióticos e terapias complementares. No longo prazo, a indústria farmacêutica será cobrada não apenas pela cura da doença aguda, mas pela sua capacidade de sustentar a saúde do paciente ao longo do tempo. Como define a visão da Peers para o futuro do setor: quando a saúde vira sistema, vencer significa ter a capacidade operacional de sustentar o cuidado.
Conclusão
A complexidade do cenário farmacêutico em 2026 exige mais do que adaptação; exige uma reestruturação estratégica focada em execução e eficiência sistêmica. A Peers Consulting + Technology possui a expertise necessária para apoiar sua organização na navegação desses desafios, desde a otimização da cadeia de suprimentos até a implementação de modelos de governança robustos.
