No CSCMP, a Reforma Tributária Deixou Claro: Supply Chain Nunca Mais Vai Ser o Mesmo
Em 7 de maio de 2026, a Peers Consulting + Technology, o CSCMP Roundtable Brazil e a GAM Tax reuniram líderes de supply chain para discutir os impactos práticos da Reforma Tributária nas operações. O encontro deixou uma conclusão clara: a reforma não é um projeto fiscal. É uma reorganização da lógica de decisão em compras, logística e estoque ao mesmo tempo.
Guilherme Sales abriu a conversa apresentando uma mudança de lógica que a maioria dos times de Compras ainda não processou: o preço deixou de ser o critério central de seleção de fornecedores.
No novo modelo tributário, a escolha precisa ser feita com base no custo efetivo, que é o preço pago subtraído do crédito tributário gerado pela transação. Um fornecedor que cobra R$ 115, mas opera em regime tributário que gera crédito elevado pode resultar em custo líquido de R$ 85. O fornecedor de R$ 100 que gera menos crédito pode custar efetivamente R$ 95. A diferença de R$ 10 no custo real, multiplicada pelo volume de compras anual de uma operação de médio porte, redefine o resultado da empresa.
“Antigamente, a decisão era baseada em arbitragem fiscal. Agora é baseada em custo total posto certo. Você precisa olhar o custo de obra, serviço e operação inteira. Estrutura que não reflete eficiência operacional passa a ser complexidade sem vantagem competitiva”, afirmou Guilherme Sales, Executive Director da Peers Consulting + Technology.
O ponto que Sales enfatizou é que o crédito tributário deixou de ser garantido no momento da compra. Ele passa a depender da conformidade do fornecedor, verificada em tempo real pela Receita Federal integrada aos sistemas ERP, TMS e WMS. Um erro do parceiro na emissão da nota e o crédito simplesmente não vem.
Para aprofundar a lógica de como recuperar e proteger esses créditos dentro da nova sistemática, vale a leitura sobre recuperação de crédito tributário e otimização do fluxo de caixa.
Luciane Paes, Tax Manager da GAM Tax, trouxe a perspectiva de quem opera do lado da consultoria tributária e vê o que acontece quando os sistemas não estão preparados para o novo modelo.
O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) substituem, respectivamente, ICMS e ISS estaduais e PIS e Cofins federais. Ambos são não cumulativos, mas o crédito depende da correta parametrização de cada elo. No modelo atual, um erro de configuração no ERP gera uma correção burocrática. No novo modelo, ele gera perda financeira imediata e irrecuperável no curto prazo.
“O fiscal vai ter que trabalhar com o pessoal de TI de forma contínua, analisando os campos que estão chegando, porque um erro de parametrização hoje causa impacto direto na cadeia inteira”, disse Luciane Paes, Tax Manager da GAM Tax.
Paes também destacou que a integração entre áreas historicamente isoladas, supply chain, fiscal e financeira, deixa de ser uma recomendação de boas práticas e passa a ser uma condição operacional. Empresas que mantiverem esses departamentos operando em silos vão descobrir isso pela conta de resultados, não por um diagnóstico preventivo.
Pedro Terra, Consultor de Supply Chain da Peers, apresentou quatro pontos extraídos diretamente de projetos em andamento.
O primeiro é sobre frete: com a transição do ISS para o CBS, serviços de transporte e armazenagem passam a gerar crédito tributário que antes simplesmente não existia. Mesmo que o custo bruto suba, o resultado líquido tende a melhorar. Isso cria oportunidade concreta de renegociação de contratos com operadores logísticos.
O segundo ponto é sobre a competitividade entre CIF e FOB. Com o fim da substituição tributária, o frete deixa de compor a base de cálculo do ICMS-ST, o que torna o CIF mais competitivo em relação ao FOB em operações onde o frete representa mais de 10% do valor da nota.
O terceiro é sobre brokers de transporte. A combinação da reforma com o piso mínimo da ANTT reduz os benefícios tributários que tornavam a subcontratação via broker vantajosa. A tendência é migração para transportadoras maiores que de fato gerem crédito na cadeia.
“Acreditamos que ficará muito mais desafiador para o broker continuar nesse segmento. O benefício dele vai ser simplesmente a parte operacional de emissão de documentos, que talvez não justifique pagar entre 7% e 10% a mais no valor”, afirmou Pedro Terra, Consultor de Supply Chain da Peers Consulting + Technology.
Terra também trouxe a experiência da Peers com o fim da substituição tributária em São Paulo para o setor de cosméticos, que serviu de laboratório do que a reforma vai universalizar. A principal lição foi sincronizar sistemas, operações e fornecedores antes da virada.
O artigo sobre o impacto do fim da guerra fiscal no polo de Extrema aprofunda como esse movimento já está redesenhando a logística do e-commerce.
Marcelo Ikaro, Executive Director da Peers Consulting + Technology, cobriu dois temas que ainda não chegaram ao nível de urgência que merecem: a reorganização da malha logística e o programa Sintonia.
Com o IBS seguindo o destino da mercadoria e não a origem, a vantagem fiscal que levou empresas a instalarem operações em estados com benefícios de ICMS vai desaparecer. O que passa a determinar a localização ideal de armazéns e centros de distribuição é custo total de operação: mão de obra, frete, aluguel e eficiência logística.
O Sintonia é uma iniciativa do governo federal lançada em meados de 2025 que cria um indicador de conformidade tributária para empresas, funcionando como um Serasa com viés fiscal. Na prática, vai transformar o processo de homologação de fornecedores: uma empresa com score baixo no Sintonia vai perder contratos não porque entrega mal, mas porque representa risco financeiro para quem compra.
“O Sintonia vai funcionar como um score fiscal do fornecedor. O time de Procurement vai começar a exigir esse score para tomar a decisão de contratar e garantir a eficiência real da cadeia. Não é mais só preço. É regime, é conformidade, é risco”, afirmou Marcelo Ikaro, Executive Director da Peers Consulting + Technology.
Um dos pontos mais comentados no encontro foi a discussão sobre o fim da substituição tributária em São Paulo e Rio Grande do Sul para categorias como cosméticos, que já está acontecendo e serve de prévia do que a reforma vai universalizar.
A Peers acompanhou de perto a implementação dessa transição com um cliente do setor e a lição foi clara: a virada exige sincronização simultânea entre quatro frentes.
Empresas que esperarem a reforma chegar para começar a sincronizar essas frentes vão aprender o processo com o custo no resultado.
A Reforma Tributária vai revelar, com precisão numérica e em tempo real, quais operações foram construídas sobre eficiência real e quais foram construídas sobre arbitragem fiscal. A pergunta que cada gestor de supply chain deveria estar respondendo agora não é “quando a reforma vai impactar minha operação?”. É “qual parte da minha operação já está sendo impactada sem que eu saiba?“
A reforma já está acontecendo. Se você quer entender o impacto real na sua operação antes de sentir no resultado, Fale com nossos especialistas.