O custo que não aparece na DRE: transporte como destruidor silencioso de margem

O lucro cresceu, a receita subiu, as metas foram batidas. A margem operacional não fecha. O custo de servir logística corrói o resultado em silêncio porque o transporte não habita um único endereço contábil.

Por que o custo logístico se esconde na estrutura contábil?

Porque o transporte atravessa o CMV na aquisição de insumos, se esconde nas despesas comerciais quando o frete é cortesia para fechar contrato e aparece de novo no SG&A na distribuição final.

Essa dispersão faz com que a margem logística nunca seja medida como indicador único e estratégico, e permite que ineficiências sejam mascaradas por crescimento de receita que, na prática, destrói margem a cada pedido.

Segundo estudo da Peers, mais de 65% das empresas brasileiras de médio e grande porte não possuem visão integrada do custo logístico por cliente ou por canal. Sabem quanto gastam com frete no agregado, mas ignoram que 20% dos clientes consomem 80% do custo de transporte.

O custo que se multiplica na esteira do crescimento

Quando o comercial fecha um pedido com frete grátis para garantir volume, o custo não é absorvido pelo vendedor nem pelo cliente, ele migra silenciosamente para a operação logística. A empresa cresce receita, mas o custo de servir daquele canal supera a margem bruta do produto. Ganha-se market share e perde-se dinheiro a cada entrega.

Essa dinâmica se agrava em operações multicanal. Uma empresa que vende para redes varejistas, e-commerce direto e distribuidores regionais opera, na prática, três estruturas logísticas diferentes sob um único orçamento:

Canal Perfil de entrega Custo relativo Visibilidade na DRE
Atacado / redes varejistas Carga completa, alto volume Referência base Geralmente visível
E-commerce direto Fracionado, last mile Até 3,5x mais caro Raramente segregado
Distribuidores regionais Volume médio, múltiplos pontos Intermediário Parcialmente visível
Fonte: Peers Consulting + Technology, com base em diagnósticos conduzidos em operações multicanal.

O desafio envolve como cada canal define a experiência do cliente e o custo de servi-lo, uma equação que raramente é separada e atribuída ao canal correto na DRE.

Por que o custo médio de frete esconde onde a margem está sendo destruída?

Muitas empresas tentam resolver o problema calculando um custo médio de transporte por pedido ou por quilograma.

Esse número é útil para orçamentos gerais, mas esconde a distribuição real do custo de servir: clientes próximos ao CD subsidiam clientes distantes, pedidos regulares subsidiam emergenciais, produtos de alta densidade subsidiam produtos volumosos e leves.

Em um projeto conduzido pela Peers, uma empresa de bens de consumo descobriu que 12% dos clientes respondiam por 40% do custo logístico total, mas geravam apenas 8% da margem líquida. Renegociar contratos e redesenhar rotas para esses clientes liberou R$ 4,2 milhões anuais em caixa, um resultado que só apareceu depois de uma análise granular por cliente, rota e tipo de pedido, e não pela média.

Transporte como termômetro de eficiência operacional

Quando o transporte passa a ser visto como indicador de eficiência, e não como despesa inevitável, a perspectiva muda.

O custo do frete reflete a qualidade do planejamento de demanda, a precisão da previsão de vendas e a disciplina da área comercial. Um transporte caro é quase sempre sintoma de um problema estrutural em outro elo da cadeia.

Pedidos urgentes, por exemplo, são o sintoma mais comum de previsão de demanda mal calibrada: quando a área de vendas não antecipa o consumo, o estoque não é posicionado corretamente e o transporte vira a válvula de escape, pagando mais para compensar o erro de planejamento. Entender como estruturar a operação de transporte como alavanca de margem começa exatamente por esse diagnóstico.

Como transformar a margem logística em indicador de gestão?

“Transporte deve ser discutido como alavanca de margem, não apenas como despesa logística”, afirma Pedro Terra, à frente das análises de transporte da Peers. “Em momentos de pressão por resultado, é uma das poucas agendas capazes de melhorar o resultado sem necessariamente reduzir capacidade comercial.”

O primeiro passo é parar de olhar o custo do transporte como linha única na DRE e desagregá-lo por dimensão relevante para o negócio: cliente, produto, canal, rota, modalidade de entrega, prazo e urgência. Cada uma dessas variáveis esconde um padrão de perda ou de oportunidade que a média jamais revela.

Para sair da armadilha do custo médio, a Peers recomenda três movimentos, em sequência:

  1. Desagregar o custo logístico por cliente, canal, rota e modalidade de entrega.
  2. Identificar concentrações de perda: clientes ou canais que consomem custo desproporcional à margem gerada.
  3. Redesenhar o modelo de serviço para esses casos, antes de qualquer renegociação de tabela de frete.

Sinais de que o custo de servir logística já está corroendo sua margem:

  • Frete grátis oferecido pelo comercial sem repasse do custo real para a operação.
  • Ausência de visão de custo logístico segmentada por cliente ou canal.
  • Pedidos urgentes concentrados em poucos clientes de baixa representatividade na receita.
  • Crescimento de receita com queda de margem operacional sem causa clara identificada.

A margem que o transporte está destruindo silenciosamente não aparece em nenhum relatório padrão. Ela só aparece quando a empresa para de olhar para o custo médio e começa a olhar para onde o custo está concentrado. Esse é o movimento que separa operações que crescem com rentabilidade das que crescem e perdem dinheiro a cada entrega.

SOBRE OS AUTORES

Pedro Henrique de Moura Terra
Pedro Henrique de Moura Terra
Associate Sr Manager
✉ pedro.terra@peers.com.br