Fim da Escala 6×1: o impacto na operação e nos custos da sua empresa

O debate sobre o fim da escala 6×1 exige que empresas avaliem seus impactos antes da definição legislativa. Mais do que uma mudança na jornada, a transição pode afetar custos, escalas, produtividade, contratação e modelo operacional.

O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força nas pautas legislativas e nas conversas de gestão. Mas, enquanto o Congresso discute os detalhes, muitas empresas ainda não fizeram a pergunta mais importante: quanto vai custar para a minha empresa a transição da operação nos cenários que eu posso fazer? Este artigo organiza o que se sabe até agora sobre o impacto financeiro e operacional da mudança, para que executivos de varejo, saúde, alimentação e outros setores intensivos em mão de obra possam se posicionar antes que o ambiente force uma reação.

“O impacto da mudança de jornada vai além da área de recursos humanos. Escalas, turnos, atividades, estrutura de equipes e metas de produtividade precisam ser revistos em conjunto e de acordo com cada segmento e contexto. É uma mudança no modelo operacional, não só no calendário de trabalho.” analisa Alexandra D’Azevedo Nunes, HR & People Director.

O que muda, na prática, quando a jornada é reduzida?

Reduzir jornada não é só ajustar um número na folha de pagamento. É rever como o trabalho está distribuído, quem cobre o quê e em que horário.

Hoje, a escala 6×1 funciona como um mecanismo de cobertura contínua: os turnos se revezam de forma que sempre há pessoas suficientes para manter a operação. Quando a jornada semanal muda, esse equilíbrio precisa ser refeito. E refazê-lo sem revisar processos, metas, atividades e estrutura de equipes é onde a maioria dos problemas começa.

O dado que coloca o desafio em perspectiva: 87,7% dos vínculos em empresas com até 4 funcionários e 88,6% nas empresas com 5 a 9 trabalhadores estão hoje em jornadas acima de 40 horas semanais. Em operações pequenas, onde cada função é crítica e a margem para redistribuição é menor, a mudança chega com menos espaço para manobra.

Em operações maiores, a exposição também é significativa. Em 31 dos 87 setores analisados pelo Ipea, mais de 90% dos trabalhadores formais têm contratos acima de 40 horas. Varejo, call center, hospitalidade e alimentação figuram entre os mais afetados.

Vale dizer o que muitas análises deixam de contemplar: o problema não é apenas o custo de contratar mais pessoas, apesar deste ser um custo relevante. É que comprimir o mesmo volume de trabalho em menos horas, sem revisar o que é feito e como, pode intensificar a carga e gerar exatamente o oposto do que a mudança prometia. Indicadores de absenteísmo e desempenho costumam ser os primeiros a sinalizar esse tipo de problema.

Quanto vai custar e o que dizem as principais estimativas?

Essa é a pergunta que mais aparece nas conversas de gestão agora. A resposta honesta é: depende de como a empresa se prepara, e as projeções disponíveis mostram um intervalo bastante largo.

A Confederação Nacional do Comércio estima aumento de até 21% nos custos sobre a folha salarial, com possível repasse de até 13% aos preços – repasse esse que está longe de ser simples. A Confederação Nacional da Indústria projeta retração de R$ 76 bilhões no PIB e alta média de preços de 6,2%. Já o Ipea chegou a um número bem mais contido: impacto médio de 1% no custo operacional das empresas, com o custo adicional do trabalho limitado a cerca de 10%.

A diferença entre essas projeções não é só metodológica. Ela reflete o que cada modelo assume sobre o comportamento das empresas durante a transição. Os cenários mais pessimistas partem do pressuposto de que as empresas vão contratar proporcionalmente para manter a cobertura. Os mais otimistas consideram ganhos de eficiência, redistribuição de tarefas e automação absorvendo parte da demanda.

Empresas do mesmo setor, com o mesmo porte, vão ter resultados muito diferentes nessa transição. A variável que explica a diferença é o planejamento, não o segmento. Quem simular cenários agora ainda tem tempo para negociar contratos, ajustar acordos coletivos e testar modelos antes que o ambiente fique mais disputado.

Contratar, redistribuir, refazer escalas ou automatizar: como pensar essa decisão (ou combinação de decisões)?

Não há resposta certa antes de olhar para os números. O caminho que funciona para um varejo de vestuário de rua pode ser inviável para uma indústria de alimentos com produção contínua, ou ainda para uma rede de farmácias.

O que podemos concluir é que os três caminhos têm perfis bastante distintos:

  1. Contratação proporcional: aumenta a cobertura sem exigir mudança de processos, mas eleva o custo fixo. É a solução mais direta e a mais cara no médio prazo, especialmente em regiões onde a mão de obra já é disputada.
  2. Redistribuição de tarefas, escalas e multifuncionalidade: reduz a necessidade de novas contratações, mas exige revisão de processos e atividades ou rotinas por pessoa, além de treinamento e provável ajuste de metas. Funciona bem onde há ociosidade de atendimento.
  3. Automação: resolve gargalos de forma permanente, reduzindo necessidade de pessoa por extinguir algumas atividades especialmente transacionais, mas exige investimento e prazo de maturação. Pode ser uma solução, porém para curto/médio prazo e não de forma imediata, pelo tempo te estudo de processos, implementação e transição.

Um dado que vale destacar: empresas de varejo que testaram o modelo 5×2 com foco em multifuncionalidade registraram crescimento de cerca de 10% em vendas nas lojas piloto, além de redução de turnover e horas extras. Isso não significa que a transição é simples. Significa que, feita com cuidado, ela pode gerar mais do que adequação.

A questão da reorganização do trabalho e seus efeitos sobre saúde ocupacional também precisa entrar nessa análise. Operações que redistribuem tarefas sem revisar a carga real tendem a trocar um problema por outro.

Por onde começar o mapeamento que antecede qualquer decisão?

Antes de escolher entre contratar, redistribuir ou automatizar, é preciso entender onde a operação está exposta ou onde residem as maiores oportunidades. Esse é o ponto de partida do workforce planning aplicado a esse contexto.

O mapeamento mínimo inclui:

  • Revisão do trabalho atual como ele acontece e oportunidades para mais resultado dentro de cenário atual
  • Análise de indicadores: turnover, ausências, produtividade por turno e afastamentos
  • Percentual da força de trabalho hoje em regime 6×1, por função e por unidade
  • Como o impacto se dará por função diretamente relacionada à redução de cobertura e verificação de risco operacional imediato
  • Construção de cenários e seus respectivos impactos em diversos aspectos, como produtividade, folha, etc.
  • Mapa de ações, incluindo acordos coletivos que condicionam mudanças de escala

Com esse diagnóstico em mãos, a empresa passa de reativa a propositiva. A decisão sobre qual caminho seguir deixa de ser baseada em urgência e passa a ser baseada em evidência, e muitas vezes se percebe que havia oportunidade antes mesmo do advento da mudança de horas de jornada.

Um exemplo de como estruturar esse tipo de processo em operações sob pressão está no case de PMO estratégico da Peers em varejo alimentar, onde o mapeamento disciplinado de iniciativas foi o que permitiu capturar valor mesmo em um ambiente de forte pressão por eficiência.

Por que esperar pode sair mais caro do que agir agora?

A admissibilidade constitucional das propostas legislativas já foi aprovada. O texto está em análise de mérito, onde serão definidos o modelo final de jornada e as regras de transição. O cenário regional dá uma indicação de direção: Chile, Colômbia e México já reduziram jornadas nos últimos anos ou estão em processo de redução gradual de suas jornadas.

Setores como varejo e alimentação já operam com rotatividade entre 40% e 60% em períodos de pico. Quando a transição se tornar obrigatória, a concorrência por mão de obra disponível para cobrir os novos turnos vai aumentar, e os custos de contratação e treinamento vão junto.

Empresas que começarem o planejamento agora ainda negociam em um mercado com opções. As que esperarem vão negociar com menos tempo, menos escolha e mais pressão de resultado.

SOBRE OS AUTORES

Alexandra Nunes
Alexandra Nunes
HR & People Director
✉ alexandra.nunes@peers.com.br