Reforma Tributária e Logística: como as empresas precisam repensar sua malha de distribuição

KEY TAKEAWAYS

  • Com a tributação migrando da origem para o destino, concentrar centros de distribuição em estados com incentivo fiscal de ICMS para vender em outras regiões perde parte da lógica econômica que sustentou esse modelo por décadas.
  • O período entre 2026 e 2028 é crítico para reposicionamento estratégico, já que contratos de galpões, obras e licenciamento têm prazos de execução de 18 a 36 meses.
  • O split payment elimina o float tributário de até 60 dias que muitas empresas usam como fonte indireta de financiamento, com impacto maior em setores de baixa margem e alto volume.
  • Polos como Cajamar, Jundiaí, Vinhedo e Cabreúva já atraem investimentos crescentes de empresas que revisam a malha logística antes que a transição se complete.
  • Parte dos ganhos de margem que empresas atribuem à eficiência operacional pode ter decorrido de incentivos fiscais, não de eficiência estrutural real.

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Por décadas, a decisão de onde instalar um centro de distribuição no Brasil foi, na prática, uma decisão tributária. Em análise concedida ao Diário do Comércio, Marcelo Ikaro, Executive Director da Peers Consulting + Technology, aponta que com a reforma tributária mudando o princípio de origem para destino, essa lógica perde sustentação.

O impacto não se limita à localização dos CDs: ele se estende à gestão de estoques, ao capital de giro e à forma como as empresas financiam suas operações.

Por que a reforma tributária muda a lógica de localização dos centros de distribuição?

Por décadas, a localização de centros de distribuição no Brasil foi fortemente influenciada por incentivos de ICMS. Com a reforma tributária, aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023, as empresas tendem a migrar o foco da engenharia tributária para a eficiência logística e financeira.

Isso acontece porque a tributação passa agora da origem para o destino do produto. Concentrar CDs em Minas Gerais ou Espírito Santo para vender em São Paulo perde parte da lógica econômica que justificava esse modelo. A localização dos CDs passa a depender mais de critérios operacionais: custo de frete, proximidade do consumidor, velocidade de entrega e capacidade de abastecimento.

"Se eu vendo para o Rio Grande do Sul, é melhor ter CD no Rio Grande do Sul", afirma Marcelo Ikaro, diretor-executivo da Peers Consulting + Technology.

A análise da consultoria aponta que o modelo tributário anterior elevou a complexidade logística no país e mascarou ineficiências operacionais. Isso significa que parte dos ganhos de margem observados pelas empresas pode ter decorrido de incentivos fiscais, e não de eficiência estrutural real.

A decisão de localização logística que o mercado ainda não fez passa exatamente por reconhecer essa distinção antes que a transição tributária force uma reação mais cara.

Quais polos logísticos já estão atraindo investimento nesse novo cenário?

Esse movimento de revisão de malha logística já começou a ser observado no mercado brasileiro. Empresas de logística e de varejo estão revisitando suas redes de distribuição com base em critérios operacionais, não apenas fiscais.

Polos como Cajamar, Jundiaí, Vinhedo e Cabreúva, no interior paulista, seguem atraindo cada vez mais novos investimentos. A Petlove, segundo Ikaro, avalia ampliar sua presença logística no estado de São Paulo. Outras companhias, como Shopee e Track&Field, também seguem em movimento semelhante.

Qual o prazo real para reposicionar a malha logística?

O período entre 2026 e 2028. É nessa janela que decisões de reposicionamento precisam ser tomadas para estarem implementadas antes da redução mais acentuada do ICMS.

IBS e CBS já estão em fase de testes, com alíquotas simbólicas. A CBS entra em vigor de forma plena em 2027, enquanto a substituição completa do ICMS pelo IBS ocorrerá até 2033. Para a Peers, o período entre 2026 e 2028 será crítico para o reposicionamento estratégico das empresas, antes da redução gradual do ICMS.

"Decisões sobre malha logística e realocação de capital que precisam estar concluídas em 2029 devem começar agora, já que contratos de galpões, obras e licenciamento têm prazos de 18 a 36 meses", aponta a Ikaro.

A recomendação é iniciar ainda em 2026 um diagnóstico de malha logística com três objetivos: identificar CDs que perdem viabilidade sem incentivos fiscais, modelar alternativas com base em custo logístico e preparar a transição operacional.

Como o split payment afeta o caixa e o estoque das empresas?

A reforma tributária não afeta apenas decisões de localização. Ela também exige revisão das políticas de estoque e de planejamento de demanda. Com menor espaço para compensar ineficiências por meio de benefícios fiscais, decisões sobre níveis de estoque, reposição regional e nível de serviço passam a ter impacto direto na competitividade.

"A maior proximidade dos CDs aos centros de consumo e uma malha mais enxuta podem reduzir o lead time de entrega e permitir estoques de segurança menores, liberando capital de giro", explica Ikaro.

Esse ajuste se conecta diretamente ao split payment, mecanismo de recolhimento de tributos no momento da transação.

No modelo atual, empresas recebem o valor integral da venda e recolhem os tributos posteriormente, em um intervalo de até 60 dias, conhecido como float tributário. Com o split payment, o sistema financeiro separa automaticamente a parcela do IBS e da CBS no ato do pagamento, reduzindo esse espaço de financiamento implícito.

Para a Peers, empresas que hoje utilizam esse período de recolhimento como fonte indireta de financiamento precisarão buscar alternativas: crédito bancário, otimização do ciclo de caixa, ajustes de estoque ou renegociação com fornecedores. A recomendação é que o impacto do split payment seja incorporado com urgência às projeções de fluxo de caixa, considerando a entrada plena da CBS em 2027.

Polos como Extrema vão perder relevância com o fim dos incentivos fiscais?

Essa é uma das perguntas mais frequentes no mercado imobiliário logístico. A resposta, por enquanto, é: não de forma imediata.

A Newmark, consultoria global do setor imobiliário corporativo, ainda não observa efeitos relevantes decorrentes do fim dos incentivos em polos logísticos. Segundo Mariana Hanania, head de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Newmark, a vacância em Extrema segue baixa e a demanda por galpões de qualidade permanece sólida.

Regiões como Extrema se destacam não apenas pelos incentivos fiscais, mas também por localização privilegiada, boa infraestrutura viária e disponibilidade de terrenos, fatores que continuam relevantes independentemente do cenário tributário.

Reposicionar a malha logística diante da reforma tributária exige diagnóstico estruturado, não decisões reativas. A área de Supply Chain da Peers apoia empresas na identificação de CDs que perdem viabilidade, na modelagem de alternativas baseadas em custo logístico real e na preparação da transição operacional dentro do prazo crítico que vai até 2028.

Perguntas Frequentes

Como a Peers pode ajudar?

A Peers apoia empresas na realização de diagnóstico de malha logística diante da reforma tributária, com identificação de CDs que perdem viabilidade sem incentivos fiscais, modelagem de alternativas com base em custo logístico real e preparação da transição operacional. https://peers.com.br/como-fazemos/

Porque a tributação passa a incidir no destino do produto, não mais na origem. Isso elimina a vantagem de concentrar CDs em estados com incentivo fiscal de ICMS para vender em outras regiões, tornando custo de frete, proximidade do consumidor e velocidade de entrega os critérios decisivos.

O período entre 2026 e 2028 é considerado crítico, já que contratos de galpões, obras e licenciamento têm prazos de execução de 18 a 36 meses. Decisões que precisam estar implementadas até 2029 devem começar a ser tomadas agora.

Split payment é o mecanismo que separa automaticamente a parcela de IBS e CBS no momento do pagamento de uma venda. Isso reduz o float tributário, período em que empresas hoje usam o valor recolhido como fonte indireta de financiamento, com impacto maior em setores de baixa margem e alto volume como supermercados e farmácias.

Não necessariamente de forma imediata. A Newmark observa que a vacância em Extrema segue baixa e o fim dos incentivos tende a gerar maior seletividade nas decisões futuras, não retração estrutural da demanda já existente.

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Marcelo Ikaro

Marcelo Ikaro

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