Evolução dos processos financeiros: IA é apenas um dos caminhos

A decisão de automatizar processos financeiros já foi tomada em praticamente todos os setores. O que ainda está em aberto é a metodologia: se a tecnologia escolhida gera retorno de verdade na operação, ou se vira mais um piloto que funcionou em ambiente controlado e nunca chegou a escalar.

Os desafios para habilitar valor, além do hype

A maior parte das áreas financeiras de grandes empresas no Brasil gasta a maior parte do tempo executando, não analisando. Conciliações manuais, fechamentos que dependem de centenas de atividades coordenadas por e-mail e planilha, consolidação de caixa feita copiando dados de múltiplas fontes, relatórios regulatórios revisados linha a linha antes de cada envio. O custo se concentra em headcount de controladoria, atraso no fechamento que adia decisões, analistas sêniores consumidos por trabalho operacional, e risco de erro em processos dependentes de memória institucional.

A decisão de automatizar está tomada em praticamente todos os setores. O que determina o resultado é a metodologia da jornada: se a tecnologia adotada gera retorno ou se produz mais um piloto que funcionou em ambiente controlado e não escala para a operação.

1. Onde o financeiro ainda está preso

Os CFOs que chegam para discutir automação costumam trazer variações do mesmo conjunto de dores operacionais:

  • Fechamento contábil que consome entre 8 e 12 dias úteis, com coordenação manual de centenas de atividades entre áreas.
  • Conciliações de recebíveis feitas por amostragem, porque cobertura total é inviável com o time atual.
  • Visibilidade de caixa que chega com atraso, porque a consolidação de múltiplas empresas ainda depende de copiar e colar.
  • Relatórios regulatórios gerados por processos manuais, com risco de inconsistência a cada reporte.
  • Gestão de contratos e obrigações de terceiros que opera no limite da capacidade amostral.
  • Análise de crédito e cobrança que reagem ao evento, não o antecipam.

Em Centros de Serviços Compartilhados (CSCs), essas dores se amplificam: volumes maiores, mais interfaces entre áreas, maior exigência de padronização e, paradoxalmente, maior inércia para mudar processos que “sempre funcionaram assim.”

O ponto em comum é que o financeiro ainda opera, predominantemente, como executor de transações. Automação bem conduzida muda esse papel. Mal-conduzida, acrescenta custo tecnológico sem alterar a operação.

2. O que o mercado está mostrando

O investimento em automação de processos saiu da fase de experimentação. O mercado global de automação inteligente de processos (que engloba RPA, mineração de processos e IA embarcada) ultrapassou USD 16,7 bilhões e cresce a 15,1% ao ano (Research and Markets / Gartner, 2025). O mercado específico de RPA aproxima-se de USD 4 bilhões, com crescimento de 13% ao ano. No segmento de serviços de negócios, os gastos com IA generativa devem crescer de USD 1 bilhão em 2023 para USD 16 bilhões em 2028 (Gartner), sinal de que IA está sendo embutida nos processos de operação, não apenas nos softwares de gestão.

A trajetória de adoção segue o padrão documentado pelo Gartner para tecnologias de ruptura: após o pico de expectativas gerado em 2022-2023, o mercado atravessou o vale da desilusão com pilotos que não escalaram, e entra agora no platô de produtividade, onde casos com ROI mensurável emergem de forma sistemática.

Para o CFO, esse momento tem uma implicação concreta: a janela de vantagem entre quem estrutura a jornada hoje e quem aguarda o “momento certo” está se fechando. Quem chega primeiro com processos padronizados e dados em ordem tem uma vantagem estrutural que os que chegam depois precisam de anos para equalizar.

3. A jornada de automação: mais do que IA. Outras soluções também entregam valor

Automação pode ser vista como uma escada de maturidade, não necessariamente linear, que ajuda a organizar a evolução das soluções e a escolha da abordagem mais adequada para cada desafio. As iniciativas podem começar por padronização e otimização (ganhos de 5 a 10% cada), avançar para digitalização (10 a 15%), automação (até 20%), GenAI (até 25%) e, quando fizer sentido, chegar a agentes de IA, capazes de atuar de forma mais autônoma em workflows complexos, com ganhos de 30 a 45% de eficiência. Ao longo dessa jornada, os ganhos podem ser cumulativos, mas o caminho não é único, nem todo caso exige IA, dependerá da estratégia e do cenário do processo/negócio.

PADRONIZAÇÃO TECNOLOGIA BASE DIGITAL / IA
Padronização Otimização Digitalização Automação GenAI Agentes de IA
Ganho de eficiência 5–10% 5–10% 10–15% Até 20% Até 25% 30–45%
Influência humana Alta Alta Média Média Baixa Autônomo
Benefício-chave Fortalecimento de compliance Melhoria na performance Escalabilidade operacional Eficiência exponencial Insights estratégicos Operações autônomas

Figura 1: Jornada de otimização de processos financeiros — da padronização à autonomia com IA. Fonte: PEERS Consulting + Technology.

Apesar da automação não seguir uma escada linear, é recomendável tratar padronização e governança do processo como alicerces: quando se automatiza um processo que funciona de forma diferente em cada unidade de negócio, você replica a inconsistência em escala, em vez de eliminá-la. Esse trabalho de base raramente aparece nos slides do projeto, mas é o que determina se a automação entrega resultados consistentes e sustentáveis.

Além da revisão necessária de processos, definir qual solução tecnológica é mais aderente para os desafios de negócio enfrentados no financeiro é fundamental para estabelecer uma arquitetura eficiente, ampliando valor além das distrações das soluções do momento.

O portfólio de ferramentas para automação de processos financeiros vai do simples ao sofisticado, e inclui muito além de IA. A escolha segue critérios de compatibilidade com o processo, maturidade dos dados e custo-benefício esperado:

OS DESAFIOS DA AUTOMAÇÃO

A captura de valor com IA e automação no financeiro ainda costuma esbarrar em barreiras conhecidas. Para escalar de forma consistente, tecnologia não basta: é necessário alinhar processos, dados e pessoas — e direcionar esforços para onde o impacto financeiro é mais relevante. Sem esse alinhamento, a organização tende a acumular projetos-piloto que não se sustentam na operação.

1. Processos: não automatize o caos

O erro mais comum é tentar automatizar fluxos desorganizados, com excesso de exceções e regras pouco claras. O resultado costuma ser mais retrabalho e menor previsibilidade. Para funcionar, as regras do processo precisam estar explícitas, o ponto de partida deve ser suficientemente estável e a divisão de responsabilidades entre automação e atuação humana precisa estar bem definida.

2. Tecnologia e dados: menos hype, mais “básico bem-feito”

Dados de baixa qualidade e sistemas pouco integrados limitam qualquer iniciativa de IA. Além disso, ferramentas aplicadas apenas a tarefas isoladas (como RPA em sua forma mais básica) tendem a gerar ganhos pontuais e frágeis.

Um ponto frequentemente negligenciado é o potencial do que já existe no ambiente: soluções nativas (como Power Automate e regras do próprio ERP) muitas vezes resolvem grande parte dos gargalos operacionais com rapidez e baixo custo. Em geral, vale capturar esse valor primeiro e deixar a complexidade para etapas posteriores.

3. Pessoas: o fator adoção

A tecnologia pode ser tecnicamente correta, mas não escala se não for incorporada à rotina. Falta de capacitação e manutenção de práticas excessivamente manuais reduzem a adoção e enfraquecem os resultados. Escalar exige definir papéis com clareza: quem é o dono do processo, quem trata exceções e quem mantém a solução após a entrada em produção. Na prática, o time precisa evoluir da execução operacional para um papel mais analítico e orientado à tomada de decisão. Para isso, a organização deve priorizar gestão da mudança, capacitação e uma comunicação clara que garanta a disseminação e a adoção consistente desse novo modelo.

4. Valor financeiro: priorize a dor certa

Sem uma priorização orientada a retorno, a empresa tende a formar um portfólio de iniciativas com baixo impacto. O critério é simples: priorizar onde há volume e dor operacional relevantes, garantindo ao mesmo tempo condições mínimas para sustentar o ganho — processo claro, dados utilizáveis e equipe preparada para absorver a mudança.

Começar por onde gera mais valor com menor esforço, não só possibilita a validação do retorno financeiro como simplifica a adoção do novo modelo de trabalho, gerando compreensão do processo e das funcionalidades enquanto os times resolvem desafios mais fáceis e de maior impacto.

4. Onde o impacto acontece: casos de uso por processo

O que distingue um caso de uso viável de um piloto que não escala são três condições: processo de entrada estável o suficiente para ser automatizado, dados com qualidade aceitável, e um dono de processo claro para absorver a mudança operacional. Onde essas condições são atendidas, os resultados são consistentes.

Order to Cash (O2C)

O O2C cobre da gestão de crédito e pedidos ao faturamento, contas a receber e cobrança. Os principais casos de automação com impacto comprovado:

Conciliação de contas a receber: matching automático de pagamentos contra posições em aberto usando valor, texto livre e comportamento histórico do pagador. Para exceções, a ferramenta sugere combinações para revisão humana. Ganho de eficiência de 70% a 90% em volume que seria inviável cobrir manualmente — liberando a equipe de recebíveis para atuar sobre exceções, não sobre rotina.

Análise de crédito e antifraude: modelos preditivos que avaliam propensão ao inadimplemento com base em dados históricos e comportamentais, convertendo uma avaliação reativa em processo preventivo.

Automação de cobrança por régua inteligente: sequências automáticas de contato calibradas por perfil do devedor e estágio de vencimento, com escalada automática para atendimento humano quando necessário.

Procure to Pay (P2P)

O P2P abrange da cadeia de compras ao pagamento de fornecedores, com alto volume de documentos e obrigações contratuais que se acumulam sem visibilidade sistêmica. Os principais casos:

Automação de contas a pagar (3-way match): cruzamento automático de pedido de compra, nota fiscal e registro de recebimento, com OCR para documentos não digitais e NLP para extração de dados relevantes. Elimina a maior parte da conferência manual que trava o ciclo de pagamentos.

Gestão de contratos com IA: extração inteligente de cláusulas contratuais (vigência, obrigações, gatilhos), monitoramento de prazos e disparo automático de ações. Transforma contratos estáticos em ativos monitorados.

Auditoria de terceiros em escala: verificação contínua de obrigações trabalhistas e compliance de fornecedores, cobrindo 100% da base com acurácia comprovada em testes, em substituição à avaliação amostral periódica.

Record to Report (R2R)

O R2R é onde o potencial de automação é mais visível e o impacto mais imediato: alto volume, regras relativamente claras e consequências diretas de atraso ou erro. Os principais casos:

Orquestração do fechamento contábil: coordenação automática de centenas de atividades entre dezenas de áreas, com distribuição de tarefas, coleta de confirmações, identificação de caminho crítico e sinalização de atrasos em tempo real. O ganho vai além do prazo de fechamento: é a capacidade de plano de ação imediato quando algo sai da curva.

Conciliações automatizadas: matching de transações financeiras contra extratos e documentos de origem, com sugestão de combinações para exceções e fluxo de aprovação integrado.

Consolidação de caixa: automações nativas de ecossistema (Power Automate, Google Apps Script) eliminam o processo manual de baixar, copiar e adaptar dados de múltiplas empresas e fontes. O dado de caixa chega consolidado, atualizado e confiável, e o analista de tesouraria passa a analisar variações, não a montar planilhas.

Reports regulatórios com aprendizado contínuo: sistemas multiagentes que geram relatórios automaticamente (COAF, BACEN, normas internas), incorporam feedback do regulador e aprimoram os ciclos seguintes sem intervenção de desenvolvimento. Cada ciclo melhora o anterior.

Hire to Retire (H2R) e Master Data Management (MDM)

H2R e MDM não são processos financeiros no sentido estrito, mas operam com frequência dentro de CSCs e são habilitadores diretos da automação financeira. Tratá-los aqui é reconhecer que automação de finanças depende de base de dados confiável e processos de suporte bem estruturados.

Em H2R, os casos de maior impacto são triagem automatizada de candidatos, automação de folha e verificação de conformidade trabalhista de terceiros. São processos de alto volume e regras relativamente claras, com retorno direto em produtividade de RH e redução de riscos trabalhistas.

Em MDM (Master Data Management), o foco é a qualidade do cadastro mestre: fornecedores, clientes, materiais e centros de custo. Dados duplicados, incompletos ou desatualizados comprometem qualquer automação de contas a pagar, recebíveis ou fechamento. Os principais casos de uso são de duplicação e enriquecimento de cadastro, onboarding automatizado de fornecedores com validação de CNPJ, documentos e compliance, e monitoramento contínuo de alterações de dados críticos.

Nos CSCs (Centros de Serviços Compartilhados), onde múltiplas empresas concentram processos de back-office, H2R e MDM têm retorno adicional: volume maior, padronização mais exigida e ganho por processo que se replica entre todas as empresas atendidas.

5. Cases da PEERS: do design à entrega

A Peers aplica esses conceitos junto aos clientes, identificando e definindo soluções mais adequadas à cada um dos desafios levantados, usando IA mas não utilizando o Hype como resposta para tudo, mas sim implementando soluções que trazem eficiência e são sustentáveis.

Nossos clientes já capturam resultados significativos nos cases implementados:

Case 1 | Orquestração do fechamento contábil — Varejo e cosméticos

Uma empresa brasileira do setor de varejo e cosméticos gerenciava mais de 500 atividades de fechamento executadas por mais de 200 pessoas de 50 áreas diferentes, sem visibilidade centralizada do andamento e sem capacidade de antecipar atrasos.

A ferramenta desenvolvida usa Google Sheets, App Scripts e Slack para orquestrar essas atividades automaticamente: distribui tarefas por responsável, coleta confirmações de conclusão via bot no Slack, calcula o caminho crítico e identifica quais atrasos impactam o fechamento em tempo real. Dashboards no Looker Studio entregam visibilidade gerencial e técnica.

Tecnologias: Google Sheets, App Scripts, Slack Bot, Looker Studio.

Resultados: prazo de fechamento reduzido de 10 para 5 dias úteis. Visibilidade em tempo real do andamento e agilidade na resolução de problemas. Processo de gestão do conhecimento estruturado para sustentar a maturidade nos ciclos seguintes.

Case 2 | Automação da consolidação de caixa — Telecomunicações

Uma grande empresa de telecomunicações consolidava diariamente informações de caixa de múltiplas empresas do grupo, com arquivos recebidos por e-mail em formatos diferentes, copiados e adaptados manualmente para o arquivo consolidado. O processo envolvia arrecadação, pagamentos, câmbio, SWAP e projeções, cada um com rotina própria, todas manuais.

Foram desenvolvidos nove fluxos no Power Automate, cobrindo os principais processos de caixa do grupo. O mesmo projeto entregou um modelo de projeção de arrecadação em Python e um cubo analítico com 100% das demonstrações financeiras conciliadas.

Tecnologias: Power Automate (9 fluxos RPA), Python, ETL.

Resultados: atividades de arrecadação de 2 horas/dia para 5 minutos; atividades de caixa de 3 horas/dia para 6 minutos. 100% das demonstrações financeiras conciliadas no cubo analítico.

Case 3 | Geração automática de reports regulatórios — Setor bancário

Instituições financeiras dependiam de processos manuais para geração de relatórios regulatórios (COAF, BACEN, normas internas de compliance), com baixa padronização entre ciclos e sem mecanismo de aprendizado iterativo. Cada novo relatório começava do zero, independente do histórico de feedback regulatório acumulado.

A solução implementa um sistema multiagentes com Knowledge Graph e GraphRAG: a narrativa de entrada aciona o engine de IA, que consulta a base de normas contextualizada, gera o relatório, passa por revisão do operador via Q&A integrado e incorpora o feedback do regulador para aprimorar automaticamente os ciclos seguintes.

Tecnologias: sistema multiagentes (Report Specialist + Report Critic Agent), Knowledge Graph (Neo4j), GraphRAG, modelos LLM, Power BI.

Resultados: redução do tempo de geração de reports, maior conformidade regulatória, automatização da revisão e correção, e melhoria contínua dos ciclos com base em feedback acumulado, sem intervenção de desenvolvimento a cada novo ciclo.

6. O que separa quem captura valor de quem não captura

A maioria das grandes empresas já tem pelo menos um projeto de automação financeira em andamento. Quem muda a operação e quem acumula pilotos frequentemente tomam as mesmas decisões tecnológicas. O que os separa são três decisões de método.

Padronizar antes de automatizar

O case de consolidação de caixa só foi viável porque o projeto incluiu, como condição prévia, a definição de um layout padrão de arquivo para cada empresa do grupo. Sem essa base, o Power Automate não teria como processar os dados de forma confiável. O trabalho de padronização raramente aparece nos slides de projeto, mas é o que determina se a automação funciona na prática.

Automatizar um processo que opera de forma diferente em cada unidade de negócio replica a inconsistência em escala, em vez de eliminá-la.

Redesenhar o processo, não sobrepor tecnologia

A tentação de qualquer programa de automação é manter o processo existente e adicionar tecnologia por cima. Esse caminho captura os primeiros pontos percentuais de eficiência e para. O que desbloqueia o potencial restante é redesenhar o processo em torno das capacidades da tecnologia, questionando quais atividades existem apenas porque havia um humano disponível para executá-las.

Levantamento do Gartner com CFOs e líderes financeiros mostra que 91% das organizações relatam impacto baixo ou moderado nos estágios iniciais de adoção de IA, com resultados expressivos concentrados em quem avançou além da fase de piloto e atacou o redesenho de processos de ponta a ponta, a adaptação do modelo operacional e a capacitação de equipes. (Gartner, Finance AI Adoption Survey, 2025).

Construir o piloto para escalar desde o início

A fase de piloto tem um viés estrutural: funciona. As condições são controladas, os dados foram preparados, os executores são os mais engajados. A pergunta que o piloto raramente responde é se o modelo de operação, a governança de dados e a capacidade de gestão da mudança são compatíveis com a escala.

O denominador comum das organizações com resultados reais em automação financeira é processo consistente, não tecnologia avançada.

O papel do parceiro de implementação

Conduzir a jornada de automação de ponta a ponta exige competências distintas que raramente coexistem em um único fornecedor de software: diagnóstico de processo, identificação de potencial de automação por atividade, definição de sequência de captura de valor, redesenho operacional, desenvolvimento da solução, implantação e gestão da mudança.

A PEERS atua como parceiro de transformação end-to-end em processos financeiros: do assessment de maturidade ao desenho da solução, do desenvolvimento à implantação, com método comprovado em mais de 1.100 projetos em 10 países. Os cinco cases descritos neste artigo são projetos concluídos, com setor, tecnologia, contexto e resultado documentados.