Geração de Caixa Pós M&A em Bens de Consumo

Essa análise foi levada à Exame por Admar Corrêa, Executive Director, e Rangel Turatti, Associate Senior Manager, ambos da Peers Consulting + Technology, que mostram como o critério de competitividade do setor migrou da disputa por aquisições para a capacidade de transformar crescimento em EBITDA e geração de caixa.

Por que a captura de valor se tornou o maior desafio do M&A em bens de consumo?

Fusões e aquisições, ou M&A, acontecem quando duas ou mais empresas se unem. O processo pode ser de compra e venda, consolidação ou combinação de operações. O ciclo de consolidação em Consumer Goods, que reúne alimentos, bebidas, higiene pessoal, limpeza e cosméticos, continua ativo.

Entre 2024 e 2025, temas de Reestruturação e Turnaround cresceram mais de 75% na agenda dos relatórios de investidores do setor. Integração Pós Aquisição dobrou de relevância no mesmo período.

A pergunta que definia liderança de mercado era sobre a escala das aquisições. Hoje ela migrou para como transformar crescimento em EBITDA e geração de caixa

Os motivadores por trás das fusões e aquisições em Consumer Goods continuam válidos. Ganho de escala, aumento de participação de mercado, entrada em novos canais e consolidação de marcas seguem no centro da tese. O que muda é o critério de sucesso aplicado depois do fechamento. Esse padrão se repete em empresas alvo de qualquer tamanho.

Por que a maior parte das sinergias prometidas no M&A nunca se concretiza?

Um processo de M&A bem-sucedido depende de disciplina na avaliação inicial e na execução da integração. Aquisições continuam acontecendo. O problema mora inteiro no que vem depois delas.

As empresas costumam superestimar os ganhos comerciais e operacionais do negócio, incluindo a redução de custos prometida na transação. E subestimam o esforço real de integração entre as partes envolvidas. Subestimam também a mudança na estrutura da empresa e a governança necessária para sustentar o resultado.

Mais de 40% das verbas comerciais aplicadas em 2024 no setor não geraram o retorno esperado, mesmo em operação corrente. Entrar em uma integração pós M&A sem disciplina de resultado multiplica o desperdício em vez de dividir custo fixo.

Admar e Rangel reforçam esse ponto: o diagnóstico do negócio adquirido raramente é o gargalo real da transação. O que determina se a integração dá resultado é a capacidade de sustentar a captura de valor ao longo do tempo, além do primeiro ano após a aquisição.

Essa leitura se conecta aos pilares de um pós M&A bem sucedido, que tratam a integração como disciplina contínua.

Como a gestão de receita (RGM) se torna motor de captura de sinergia pós-aquisição?

O RGM é normalmente discutido como ferramenta comercial de preço, promoção e portfólio. Dentro de um processo de transformação, ele muda de papel. Se torna o principal instrumento de captura de sinergia entre as operações combinadas.

As decisões que mais movem resultado vêm depois do fechamento. Elas envolvem quais SKUs eliminar diante da duplicidade de portfólio, qual arquitetura de preço adotar por canal, e como evitar canibalização entre marcas que passaram a coexistir sob o mesmo guarda-chuva.

Dimensão Papel Tradicional do RGM Papel na Integração Pós M&A
Foco principal Preço, promoção e portfólio isolados Instrumento central de captura de sinergia
Decisão sobre SKUs Otimização de mix por marca Corte de SKUs duplicados entre marcas
Verba comercial Negociação pontual por marca Realocação sob um único critério de ROI
Relação com o caixa Indireta, via margem Direta, antes mesmo da margem

Por que a geração de caixa aparece antes da margem na integração pós-M&A?

A captura de valor aparece primeiro na geração de caixa, antes de aparecer na margem reportada. Redução de estoques duplicados, consolidação de fornecedores, melhoria no planejamento de demanda e aumento do giro liberam capital parado na operação de cada empresa.

Em um cenário de crédito mais caro, essa liberação de caixa se torna estratégia financeira central da transação. O caixa liberado nos primeiros meses costuma financiar o próprio custo da integração, antes que qualquer sinergia apareça no EBIT.

Qual o risco de integrar operações sem um plano de demanda único?

A leitura mais comum no mercado é que unir duas cadeias de bens de consumo gera ganho automático de escala logística. Na prática, essa leitura não se confirma sempre.

Sem um plano de demanda integrado desde o primeiro dia, o ganho esperado de escala logística pode se transformar em complexidade de malha. A eliminação de ruptura de gôndola pode se transformar em excesso de estoque nos dois lados da operação combinada.

A sinergia de cadeia existe, mas não acontece de forma espontânea. Ela depende de coordenação entre comercial, supply chain e finanças das empresas envolvidas, desde a primeira semana pós fechamento.

Qual o papel do Transformation Office na captura de valor pós-M&A?

Para que essas iniciativas convertam em resultado financeiro, é necessária uma estrutura de governança dedicada. O mercado chama essa estrutura de Transformation Office. Suas funções centrais são:

  • Priorizar iniciativas pelo impacto direto em caixa e EBIT.
  • Monitorar ganhos pelo resultado financeiro reportado a cada trimestre.
  • Garantir que a tese financeira do deal converta em linha de resultado ao longo dos trimestres seguintes.

Sem um Transformation Office, a integração reporta apenas marcos concluídos. Com ele, reporta margem recuperada e caixa gerado. É essa lógica que aparece no PMO estratégico como alavanca para captura de valor, case que estruturou governança para disciplinar trade marketing e renegociação contratual sob forte pressão de eficiência.

O próximo ciclo do setor de Consumer Goods vai premiar quem estruturou a disciplina para extrair valor dos ativos comprados. A prova, trimestre após trimestre, estará no caixa gerado e no EBIT reportado ao investidor.