O varejo farmacêutico brasileiro vive um ciclo de crescimento de receita, lucro e consolidação por aquisição. Mas, para sustentar essa expansão, grandes redes precisam ir além da compra de lojas e resolver o desafio de integrar cadeias de abastecimento, logística, marca própria e canais digitais.
O varejo farmacêutico brasileiro está em um momento importante: crescimento de receita, lucro recorde no primeiro trimestre e um movimento crescente de consolidação por aquisição.
Esse cenário foi analisado pelo Futuro da Saúde, com participação de Admar Correa, diretor executivo da Peers Consulting + Technology, que destaca o que poucas redes calculam corretamente: o que vem depois da aquisição, integrar uma cadeia de suprimentos que não foi desenhada para operar em escala.
O setor está gerando caixa e lucro em ritmo acelerado, e esse desempenho cria espaço financeiro real para movimentos de expansão.
Na última semana, as farmácias divulgaram o desempenho do primeiro trimestre de 2026. A RD Saúde obteve lucro de R$ 299,8 milhões, a Pague Menos R$ 55,3 milhões e a Panvel R$ 38,5 milhões. Essas duas últimas redes já haviam registrado forte crescimento no quarto trimestre de 2025, com altas de 50% e 35% na comparação anual.
Segundo a Abrafarma, o setor farmacêutico cresceu 13,5% em faturamento no acumulado de 12 meses, passando de R$ 110 bilhões para R$ 113,27 bilhões. A venda de medicamentos, carro-chefe do setor, somou R$ 77,49 bilhões, com alta de 15,19%. As vendas digitais tiveram o salto mais expressivo: de R$ 13,16 bilhões para R$ 19 bilhões, um aumento de quase 49%.
Para Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, esse desempenho está ancorado em vetores estruturais como envelhecimento da população, aumento da prevalência de doenças crônicas e fortalecimento da farmácia como hub de saúde.
Mas o crescimento consistente não elimina a pressão por eficiência:"ganhará rentabilidade quem se adequar a um mercado mais maduro, que exige ganho de produtividade, diferenciação e escala", afirma Barreto.
A pergunta que toda rede em expansão precisa responder antes de comprar uma marca regional é: estamos prontos para integrar a cadeia de abastecimento dela à nossa?
Redes regionais como Panvel e DPSP atingiram um porte que as tornou alvos naturais de aquisição para players que buscam expansão geográfica. Comprar uma operação já estabelecida costuma ser mais rápido do que abrir lojas do zero em um mercado novo.
O que determina o sucesso da aquisição acontece depois da assinatura do contrato. "Hoje, um dos principais desafios nesse processo é a cadeia de abastecimento e logística, o que é ultrapassado ao adquirir uma marca já consolidada", afirma Admar Correa, diretor executivo da Peers Consulting + Technology.
Admar aponta ainda uma camada que raramente entra no modelo financeiro da aquisição: "Também tem toda a questão de branding aware, porque não é tão simples entrar em um local que já tem uma marca forte", completa.
Essa combinação, cadeia logística consolidada mais marca com reconhecimento local, significa que a integração não pode ser tratada como padronização simples. Existem ainda implicações tributárias da expansão que entram na equação de qualquer processo de aquisição ou reestruturação de rede.
Marca própria deixou de ser categoria complementar e passou a ser parte central da estratégia de margem e fidelização das grandes redes farmacêuticas.
Observando o futuro do setor, Admar Correa espera maior presença de produtos de marca própria nas farmácias. "Para a indústria, gera uma margem melhor", aponta Correa.
Na Panvel, essa tendência já é realidade: 50% da venda de maquiagem da rede já é dominada pela marca própria Panvel Make Up, segundo a representante comercial da empresa, que afirma que o objetivo é lançar mais produtos.
O argumento para o varejo vai além da margem direta. "A marca própria também ajuda a fidelizar o nosso cliente e a nos dar uma sustentabilidade em relação a mix de venda e rentabilidade", complementa Márcia Wagner, diretora-executiva comercial da Panvel.
Esse efeito de fidelização se conecta a um movimento mais amplo do setor: a integração de serviços clínicos, como testes rápidos e vacinação, que segundo a Panvel aumenta a frequência de compra e o ticket médio. A combinação de marca própria com experiência do cliente bem estruturada é o que sustenta esse ciclo de fidelização.
A expansão das grandes redes farmacêuticas não está acontecendo apenas em uma frente. Ela combina abertura de lojas físicas com investimento crescente em presença digital, e essa combinação tem efeito direto sobre o poder de negociação das redes.
"É um setor muito pautado pela conveniência e a expansão física se torna relevante", avalia Admar Correa, diretor executivo da Peers Consulting + Technology.
Segundo Admar, essa expansão física vem acompanhada de uma estratégia de investimento em presença digital. Com as duas frentes avançando ao mesmo tempo, as redes conseguem maior poder de negociação com distribuidoras e conseguem oferecer melhores preços frente a concorrentes menores.
A leitura de Admar sobre o futuro do setor é direta: "A tendência é vermos ainda mais os grandes players abrindo lojas e ganhando muito nessa experiência do cliente na fidelização", acrescenta.
Essa dinâmica também aparece na entrada de medicamentos em marketplaces como iFood, Rappi e Mercado Livre. Segundo Admar, isso segue uma tendência do consumidor de concentrar compras em um mesmo ambiente, o que estende a jornada de delivery habitual para outras categorias de produto.
Sustentar o ritmo de crescimento do setor farmacêutico exige que a operação acompanhe a expansão física e digital sem perder eficiência, e isso precisa ser planejado antes da aquisição ou expansão acontecer, não depois.
Como tendências que vão sustentar esse crescimento, o CEO da Abrafarma aponta digitalização e integração entre canais físico e online, uso intensivo de dados e programas de fidelidade, expansão de marcas próprias e maior foco na experiência do cliente, inclusive entre redes regionais.
Nenhuma dessas frentes funciona isoladamente: digitalização sem integração de dados gera silos, marca própria sem cadeia de suprimentos preparada gera ruptura, expansão física sem planejamento logístico gera ineficiência.
A combinação de fatores estruturais favoráveis, crescimento de dois dígitos esperado e pressão por produtividade e escala cria um cenário em que a operação que não acompanha o ritmo financeiro do setor se torna o fator limitante do crescimento, não o mercado.
Como a Peers pode ajudar?
A Peers apoia redes de varejo farmacêutico em processos de aquisição e expansão, com foco na integração de cadeia de suprimentos, planejamento logístico e estruturação operacional para sustentar crescimento sem perder eficiência.
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Por que as redes de farmácia estão crescendo por aquisição?
O crescimento por aquisição permite que grandes redes, hoje concentradas regionalmente, expandam para novos mercados de forma mais rápida do que abrindo lojas do zero. O desafio principal não está na aquisição em si, mas na integração operacional da cadeia de abastecimento e logística da marca adquirida.
Qual é o principal desafio de supply chain em uma aquisição no varejo farmacêutico?
O principal desafio é integrar uma cadeia de abastecimento e logística que já está consolidada e operando com lógicas próprias. Isso inclui questões de branding aware, ou seja, a marca adquirida já tem reconhecimento local, e a integração não pode comprometer esse valor enquanto padroniza processos logísticos.
Marca própria é uma tendência relevante no varejo farmacêutico?
Sim, e crescente. Em redes como a Panvel, marca própria já representa metade da venda de maquiagem. A tendência gera margem melhor para a indústria e contribui para a fidelização do cliente, além de ajudar o varejo a equilibrar o mix entre marcas próprias e de terceiros.
O crescimento do setor farmacêutico deve continuar nos próximos anos?
Segundo a Abrafarma, o setor cresceu 13,5% em faturamento no acumulado de 12 meses, com vendas digitais crescendo quase 49%. A expectativa é de crescimento acima de dois dígitos, mas a rentabilidade futura vai depender de ganho de produtividade, diferenciação e escala operacional.
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