O custo logístico no Brasil deve representar 15,5% do PIB em 2025, contra 8,8% nos Estados Unidos. Mais do que um problema de infraestrutura, essa diferença revela a importância de revisar malhas logísticas com tecnologia, dados e simulação de cenários para tomar decisões mais eficientes e resilientes.
O Brasil gasta 15,5% do PIB em custos logísticos. Nos Estados Unidos, esse número é 8,8%. Segundo análise de Marcelo Ikaro, Executive Director, e Rodrigo Pessotto Almeida, Associate Engagement Manager, da Peers Consulting + Technology, publicada na Mundo Logística, a diferença não está apenas na infraestrutura.
A diferença está em como as empresas decidem onde estocar, como transportar e quando ajustar a malha, decisões que a tecnologia já permite simular antes de executar. Este artigo é para líderes de supply chain, logística e operações que estão revisando a configuração da rede e querem entender o papel da tecnologia nessa decisão.
Porque parte significativa do custo logístico brasileiro vem de decisões de rede tomadas sem simulação prévia, não apenas da infraestrutura disponível.
Projeções do ILOS indicam que os custos logísticos devem representar cerca de 15,5% do PIB em 2025. Em países com cadeias mais maduras, como os Estados Unidos, esse percentual gira em torno de 8,8% do PIB, segundo o State of Logistics Report. A diferença de quase 7 pontos percentuais costuma ser atribuída a desafios estruturais de infraestrutura e integração, e isso é real. Mas há outra camada menos discutida.
Em operações com decisões de rede pouco simuladas, ineficiências se acumulam silenciosamente: estoque parado em lugar inadequado, fluxos de transporte desenhados para uma realidade que já mudou, centros de distribuição posicionados por critérios que fizeram sentido há anos e nunca foram revisados. Esse custo operacional da cadeia se soma ao custo de infraestrutura e ajuda a explicar por que o hiato entre Brasil e mercados mais maduros é tão persistente.
Uma malha logística inteligente é um modelo de rede que combina configuração física, como centros de distribuição, fluxos de transporte e níveis de estoque, com capacidade de decisão orientada por dados e apoiada por tecnologia. Ela vai além de onde os ativos estão localizados e está diretamente ligada a como as decisões são tomadas ao longo da cadeia.
O conceito representa uma mudança de paradigma. Durante muito tempo, competitividade logística esteve associada à posse de ativos: ter CDs bem localizados, frota própria, contratos de longo prazo. Esses ativos continuam relevantes, mas deixaram de ser o diferencial central.
"O diferencial está em como as decisões estratégicas e operacionais são tomadas ao longo de toda a cadeia, com impacto direto em indicadores como custo logístico total, nível de serviço e capital empregado em estoques", explicam Marcelo Ikaro, Executive Director, e Rodrigo Pessotto Almeida, Associate Engagement Manager.
Uma malha logística inteligente é, portanto, um modelo dinâmico e adaptável, capaz de responder a variações de demanda, restrições operacionais e mudanças regulatórias sem que cada ajuste exija uma reconfiguração completa da rede.
A tecnologia entra na malha logística inteligente como camada de simulação, não como substituição de decisão humana. O que muda é a possibilidade de testar uma configuração antes de implementá-la, em vez de descobrir seus efeitos depois.
Ferramentas de Network Design e simulação de cenários permitem comparar diferentes configurações de centros de distribuição, fluxos de transporte e políticas de atendimento, analisando o trade-off entre custo logístico total, nível de serviço (OTIF), prazos, estoques e riscos. Sistemas de TMS e WMS sustentam a execução dessas configurações no dia a dia, enquanto plataformas de analytics e soluções de inteligência artificial ajudam a identificar padrões que orientam ajustes contínuos.
Um exemplo de mercado ilustra esse movimento: grandes plataformas de e-commerce, como o Mercado Livre, vêm investindo em automação e integração digital de centros de distribuição e transportadoras para agilizar o processamento de pedidos e elevar o nível de serviço. O ganho não vem de um único sistema, mas da integração entre planejamento, execução e dados operando como conjunto.
A reforma tributária não criou a necessidade de revisar a malha logística, mas intensificou esse movimento. O período de transição exige que as empresas convivam simultaneamente com regras antigas e novas, o que demanda maior capacidade analítica para entender impactos financeiros, logísticos e operacionais das decisões tomadas hoje.
Atualmente, as empresas que revisam sua malha por causa da reforma seguem, em geral, dois caminhos. O primeiro é aproveitar o período de transição para capturar benefício fiscal, ajustando footprint logístico, contratando CDs em localidades específicas ou redefinindo fluxos de atendimento.
O segundo é entender, ano a ano, como a malha se comporta ao longo da transição e qual será a configuração mais adequada no cenário pós-transição, prospectando armazenagem com antecedência para evitar picos de custo de locação.
O risco está em tratar apenas o primeiro caminho como suficiente. Empresas industriais e de bens de consumo já vêm usando simulações de malha para avaliar configurações considerando custo logístico total, tempos de atendimento, estoques e riscos operacionais, indo além de uma lógica puramente fiscal. A reforma tende a reduzir distorções tributárias ao longo do tempo.
Decisões de rede tomadas apenas para capturar essas distorções enquanto elas existem podem não se sustentar quando elas deixarem de existir. Esse tipo de análise complementa a discussão sobre planejamento tributário no contexto mais amplo da reforma.
Ter dados e tecnologia não é o mesmo que tomar decisões melhores com eles. Essa é uma das lacunas mais comuns em organizações que já investiram em sistemas, mas ainda não veem o retorno esperado em qualidade de decisão.
A nova malha logística depende de integração entre áreas dentro da empresa e entre empresas ao longo da cadeia. Em operações B2B, esse desafio é particularmente evidente: a digitalização da malha depende não só da maturidade interna, mas da capacidade de integrar fornecedores, operadores logísticos e transportadoras que, muitas vezes, ainda operam com baixo nível de padronização, uso intensivo de planilhas e trocas manuais de informação.
Além de implantar sistemas, o desafio está em transformar dados em insights e ações concretas. Isso exige governança, processos claros e capacitação das equipes. Organizações que avançam nessa agenda constroem malhas mais resilientes, preparadas para crescer, absorver mudanças regulatórias e competir em um mercado cada vez mais exigente.
Como a Peers pode ajudar?
A Peers apoia empresas na revisão de malha logística com simulação de cenários, Network Design e análise de custo logístico total, considerando estoques, transporte e nível de serviço. O trabalho inclui também a leitura do impacto da reforma tributária sobre a configuração de rede no curto e no longo prazo.
Conheça nossas soluções: https://peers.com.br/como-fazemos/supply-chain/
O que é Network Design e como ele ajuda na revisão da malha logística?
Network Design é a disciplina de planejamento que simula diferentes configurações de rede, como localização de CDs, fluxos de transporte e níveis de estoque, antes da implementação. Permite comparar cenários em termos de custo logístico total, nível de serviço e capital empregado, reduzindo o risco de decisões baseadas apenas em intuição ou pressão fiscal.
Por que o custo logístico no Brasil é tão mais alto que em outros países?
A diferença combina infraestrutura defasada, juros elevados e forma de tomada de decisão nas empresas. Segundo o ILOS, o custo logístico no Brasil deve representar 15,5% do PIB em 2025, contra 8,8% nos Estados Unidos. Parte dessa diferença pode ser reduzida com decisões de rede mais orientadas por dados.
A reforma tributária deveria ser o principal motivador para revisar a malha logística?
Não deveria ser o único. Empresas que revisam a malha apenas para capturar benefício fiscal durante a transição correm o risco de tomar decisões que não se sustentam quando o cenário tributário se estabilizar. A revisão mais sólida combina a leitura fiscal com análise de custo logístico total, nível de serviço e crescimento futuro.
Minha empresa já tem dados e tecnologia. Por que ainda não conseguimos tomar decisões melhores com eles?
Esse é um desafio comum. Ter dados e ferramentas não é suficiente sem governança, processos claros e integração entre as áreas e os parceiros da cadeia, como fornecedores e transportadoras. O ganho real vem da capacidade de transformar dados em decisões, não apenas de acumulá-los.